Os estragos causados pela tempestade Kristin, relatados por Sofia Lisboa, dos Silence 4, revelam um problema estrutural pouco discutido: a insuficiente proteção financeira do património habitacional em Portugal. Inundações severas, infiltrações generalizadas e danos estruturais transformam casas próprias em passivos financeiros, com impacto direto no valor dos imóveis, nos seguros e na solvabilidade das famílias. Ela também destacou que quase perdia a vida tentando se proteger.
Danos estruturais e perda de valor imobiliário
Segundo o testemunho, a habitação apresenta “cascatas em todas as divisões”, um indicador claro de falhas graves de impermeabilização e possível comprometimento estrutural. Em termos financeiros, este tipo de dano pode reduzir o valor de mercado de um imóvel entre 15% e 40%, especialmente em zonas já classificadas como de risco climático.
Plataformas como Idealista e mediadoras como a ERA Imobiliária já refletem este fenómeno: imóveis em regiões afetadas por eventos extremos passam a exigir descontos significativos para serem transacionados, afetando proprietários, investidores e bancos credores.
Seguros multirriscos: cobertura real vs. ilusão contratual
Grande parte das famílias portuguesas possui seguros multirriscos com coberturas limitadas para fenómenos climáticos extremos. Infiltrações, cheias e danos progressivos são frequentemente alvo de exclusões contratuais, deixando os proprietários expostos a custos de reconstrução que podem ultrapassar 50.000€ a 120.000€.
Seguradoras como Fidelidade, Allianz ou Tranquilidade estão a rever prémios e franquias, enquanto bancos como Millennium bcp, CGD e Santander reavaliam garantias associadas a crédito habitação em zonas de risco climático elevado.
Crédito, reconstrução e pressão bancária
Quando os seguros não cobrem a totalidade dos danos, muitas famílias recorrem a empréstimos pessoais ou reforços de crédito habitação para financiar obras urgentes. Esta solução aumenta o endividamento, pressiona o cash flow mensal e eleva o risco de incumprimento, sobretudo num contexto de subida de taxas de juro.
Para o sistema financeiro, eventos como a tempestade Kristin representam um risco agregado, com impacto potencial na estabilidade de carteiras de crédito imobiliário e na necessidade de provisões adicionais.
Clima extremo e risco sistémico nacional
Desde o final de janeiro, Portugal registou 15 mortes associadas às depressões Kristin, Leonardo e Marta, além de centenas de feridos e desalojados. Os danos materiais incluem habitações, empresas, infraestruturas e serviços essenciais, criando um cenário de stress financeiro sistémico.
O prolongamento do estado de calamidade e o anúncio de apoios públicos até 2,5 mil milhões de euros terão impacto direto nas contas públicas, nos seguros e na política de crédito da banca nacional.
Como proteger património e reduzir perdas financeiras
- Rever seguros multirriscos com cobertura específica para fenómenos climáticos extremos.
- Auditorias técnicas ao imóvel para prevenir danos estruturais futuros.
- Planeamento financeiro com fundo de emergência dedicado a catástrofes.
- Negociação bancária preventiva para linhas de crédito contingentes.
- Avaliação imobiliária regular para monitorizar risco patrimonial.
O testemunho de Sofia Lisboa não é apenas um relato emocional: é um alerta financeiro. Num país cada vez mais exposto a fenómenos climáticos extremos, proteger o património deixou de ser opcional. Seguros robustos, planeamento e literacia financeira são hoje instrumentos essenciais para evitar perdas patrimoniais irreversíveis.











